A sublime impotência de não ter palavras

Alguns anos atrás, nem sei quantos, uma imagem me marcou a ferro. É claro, sim, que muitas imagens me marcaram na vida. Mas esse caso me convenceu de que deve haver um compartimento específico e muito íntimo na memória, em que só caiba a lembrança de uma única fotografia. É lá que ficou guardada essa imagem que jamais esqueci. Mas se minha hipótese estiver furada e esse tal compartimento não existir, então não sei como foi acontecer. Uma dessas coisas, suponho, que se dão por mágica.
Era uma paisagem. Tomada do alto, provavelmente de um helicóptero. À direita, uma planície retalhada em grandes quadrados, verdes e de um amarelo acinzentado. À esquerda, o mar, numa baía rasa e arenosa, onde o curso das marés desenhava volutas aqui e ali cintilantes de sol. Ao centro, uma ilha redonda, um volume de pedra isolado entre dois ambientes aflitivamente planos, como a recusa extensa ao achatamento do horizonte.

Já um belo canto do planeta, certamente. Mas não particularmente memorável, sem o dedo do homem. Os medievais, em seu raciocínio transcendental, entenderam que aquela não era uma ilha qualquer. Só podia ser um canto que Deus queria mais próximo de si, para erguê-lo assim, sozinho, perdido na baía. Era evidente que deveriam construir ali um mosteiro, e assim procederam. Depois, deram-se conta de que não só estavam mais perto de Deus lá no alto, como estavam muito bem protegidos contra os vikings, a atacar cá debaixo. As obras foram expandidas. Muralhas, paredes, uma vila de pedra. A igrejinha do mosteiro, em poucos séculos, se fez catedral exuberante.
Eis o Mont Saint-Michel, a imagem agarrada à minha lembrança. Eu só queria descobrir onde ficava e como chegar. Quando desembarquei no aeroporto Charles de Gaulle, assim que o funcionário da imigração liberou minha entrada, ataquei: “por onde é o Mont Saint-Michel? Mas ele não estava no auge de seu humor e se limitou a indicar com a mão: “por ali”, e me dispensou.

Como é possível que tenha demorado tanto? Verifiquei as linhas de trem, era longe. Excursões são organizadas tendo em vista o americano médio; eu posso ser médio, mas não sou americano. Fora de questão alugar carro ou ir a pé. No verão, os hotéis, pousadas e albergues seriam caros, se tivessem vaga. Resumindo, meu maior objetivo turístico parecia além do alcance.
Mas, já diz o grande hino, quem espera sempre alcança. Junta-se um grupo de bravos guerreiros para a batalha. Uns mais bravos que outros, claro, mas que seja: partimos. Com um pouco de conversa mole, consegue-se um carro. Mapa na mão, enfrentamos a selvageria do bulevar periférico, onde as leis do trânsito são invertidas (acontece muito na França), e chegamos à auto-estrada, com um suspiro coletivo de alívio. Normandia, aguarde-nos.

* * *

Enchi este texto de detalhes desnecessários. Reconheço e admito que foi intencional. O que há é que existem aquelas sensações que podem ser descritas e aquelas que não podem. Certas coisas só se experimentam, só se vivem. Muitas vezes passei por isso. Desde o princípio, sabia que passaria novamente no Mont Saint-Michel. Felizmente, parece sempre ser possível contornar a insuficiência da expressão com alguns truques: metáforas, imagens, ritmos. Tomam-se desvios de linguagem, na esperança de transmitir tal e qual uma perturbação do espírito. É ilusório, claro. O espírito não tem tradução verbal, no máximo efeitos análogos, que é o que tentam conseguir os poetas e, com ambição infinitamente menor, os cronistas.
Desta vez, bastou me aproximar da costa normanda para saber que não seria possível. À distância, já divisava as pedras escuras do mosteiro ilhado, e fui tomando a consciência de que se consumara o divórcio entre palavra e sensação. Sinédoques, aliterações, catacreses, não haveria recurso ardiloso de manipulação do leitor que fosse eficaz. Por uns instantes, me senti impotente. Depois, reconheci a bênção que me era dada pelos monges. A alegria que não se compartilha é egoísta, por certo, mas a que não se pode compartilhar é sublime. Pois bem, a visita ao Mont Saint-Michel foi desses momentos sublimes e tão raros, no que termino sem mais palavra.

PS: Já que as palavras não servirão, resolvi fechar o ciclo. O Mont Saint-Michel entrou em minha vida através de uma fotografia. Pois bem, que então saia pela mesma porta.

setembro 6th, 2008 às 12:18
com certeza meus passos alí deixados aos meu treze anos (1937) os seus encontraram alí agora, o tempo passa, a imortalidade da aquitetura medieval ou pós - medieval, eterno deslumbramento, hoje olho pras famosos e cantadas obras de arquitetura tão elogiada e contemporânea e levado ao futuro não muito distante só vislumbro um monte de entulho nunca um Mont Saint - Michel
abraço
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setembro 7th, 2008 às 6:24
Li de um fôlego… e adorei!
Um abraço e bom domingo
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setembro 7th, 2008 às 8:52
Sei de um filme um tanto quanto datado que tem metade do seu valor por conta desse cenário. É “O Ponto de Mutação”, e o título tem mesmo a ver com aquele livro do Fritjof Capra. E mesmo datado, continua sendo um bom filme.
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setembro 7th, 2008 às 10:11
Lindo texto! e o lugar realmente dá esta inspiração….
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setembro 13th, 2008 às 18:30
Bah, Diego, não sei se consigo imaginar teu queixo caído ao ver essas imagens. Sublime, realmente sublime. Acho que embora seja difícil transformar em palavras, tu conseguiste passar uma idéia. Gostei demais do texto também.
Preciso conhecer mais o mundo. E isso é urgente…
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setembro 13th, 2008 às 18:32
Tenho um amigo muito querido visitando a França agora. Mandei teu post pra ele. Ele precisa conhecer esse lugar.
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novembro 1st, 2008 às 23:30
que vontade de conhecer o mundo. Que parece pequeno, mas tudo é tão intenso….
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